O mercado gastou com ferramentas. Agora quer resultado. Essa edição fala sobre o que está mudando nas vendas B2B.

Seu chefe não quer saber se o pato é macho. Ele quer ovo.

Essa é uma frase que um antigo colega de trabalho repetia sempre que, numa reunião de vendas, alguém começava a explicar demais. Ficou comigo por anos.

E acho que resume bem o que está acontecendo no mercado agora.

Ela resume uma expectativa que está voltando com força no mercado B2B: menos ferramenta, mais resultado.

Nos últimos meses, tenho percebido uma mudança nas conversas com clientes e prospects. Depois de um período intenso de experimentação com ferramentas de IA, automações e plataformas que prometiam resolver tudo com alguns cliques, muitas empresas estão olhando de novo para o serviço.

Para gente que assume responsabilidade. Para parceiros que jogam junto.

Não é só percepção. As principais vozes do ecossistema de tecnologia mundial estão dizendo a mesma coisa.

O que está acontecendo no mercado

Y Combinator, uma das aceleradoras mais influentes do mundo, atualizou recentemente sua página de investimentos com uma frase que resume bem o momento: empresas nativas de IA não vendem software, vendem o serviço. Não vendem ferramenta, vendem o trabalho feito.

Em março deste ano, a Sequoia Capital, uma das maiores gestoras de venture capital do planeta, publicou um artigo que viralizou no mercado de tecnologia. O título: “Services: The New Software”. A tese central é direta: para cada dólar que as empresas gastam com software, elas gastam seis com serviços. O mercado de trabalho entregue é muito maior que o mercado de ferramenta vendida.

A Sequoia usa uma distinção útil: copilot versus autopilot.

  • Copilot vende a ferramenta que ajuda alguém a fazer o trabalho
  • Autopilot vende o trabalho pronto.

O Copilot compete pelo orçamento de software. O Autopilot compete pelo orçamento de serviço, que é muito maior.

Esse movimento não é teoria.

Gartner projeta que 40% das soluções SaaS empresariais terão elementos de precificação baseada em resultado até o final de 2026. Em 2022, esse número era 15%. A Deloitte estima que metade das organizações vai direcionar mais de 50% do orçamento de transformação digital para automação com IA neste ano. E a EY publicou recentemente uma análise sobre como a mudança de modelo de precificação, de licença por usuário para cobrança por resultado, está forçando empresas de software a repensar toda a sua estrutura de receita.

O modelo SaaS tradicional, baseado em cobrança por assento, está sendo questionado. Não porque as ferramentas sejam ruins, mas porque a expectativa do comprador mudou.

O cliente não quer pagar pelo acesso. Quer pagar pelo resultado.

Por que ferramenta sozinha não resolve

Durante muito tempo, o modelo SaaS venceu organizando partes do problema. Uma ferramenta fazia CRM, outra fazia automação de e-mail, outra fazia cadência de prospecção, outra fazia enriquecimento de dados, outra fazia análise de conversão. O cliente conectava tudo, integrava as APIs, treinava o time e orquestrava o resultado. Isso funcionou enquanto o custo de integração era aceitável e o talento para operar estava disponível.

Hoje, nem um nem outro.

Vi recentemente um post no LinkedIn que capturou bem esse sentimento. A frase era simples: “Eu não quero algo pra resolver uma parte do problema. Eu quero que tirem da minha mão o problema inteiro.” E continuava: “Ninguém quer conectar cinco ferramentas. Ninguém quer gerenciar cinco fornecedores. Ninguém quer consolidar dados que não conversam. O custo operacional disso deixou de ser aceitável.”

Essa é a dor real. E ela aparece de formas diferentes dependendo do tamanho e maturidade da empresa.

Em empresas menores, a dor aparece como sobrecarga. O dono ou o gestor comercial precisa operar a ferramenta, treinar o time, acompanhar os números, ajustar as cadências, e ainda vender. Não há braço para fazer tudo. A ferramenta vira mais uma tarefa, não uma solução.

Em empresas maiores, a dor aparece como fragmentação. Cada área comprou sua ferramenta. Marketing usa uma plataforma, pré-vendas usa outra, vendas usa o CRM, CS usa um terceiro sistema. Ninguém tem visão completa da jornada. Os dados não batem. As decisões são tomadas com informação incompleta.

Nos dois casos, a promessa de que “a tecnologia resolve” não se materializa.

Porque tecnologia sem processo não resolve.

Tecnologia sem julgamento humano não fecha negócio.

Tecnologia sem responsabilidade pelo resultado é só custo fixo a mais.

O modelo que está ganhando

A combinação de IA, automação e dados tornou viável algo que antes não era: assumir o problema de ponta a ponta. Não apoiar. Não otimizar. Resolver.

Isso está criando uma nova categoria de empresas. A ACE Cortex, consultoria brasileira de inovação, publicou um material recente chamando esse modelo de OaaS (Outcome-as-a-Service). A lógica é simples: em vez de vender acesso a uma plataforma, você vende o resultado que a plataforma deveria gerar. Em vez de cobrar por usuário, você cobra por reunião agendada, por lead qualificado, por contrato fechado.

Esse modelo exige mais da empresa que vende. Exige processo. Exige acompanhamento. Exige responsabilidade. Mas também captura mais valor. Porque você não está competindo com outras ferramentas pelo orçamento de software. Está competindo com o custo de contratar alguém para fazer aquele trabalho internamente.

A Sequoia coloca assim: o autopilot captura o orçamento de trabalho desde o primeiro dia. E esse orçamento é muito maior que o orçamento de ferramenta.

Aqui na INCITAT, percebi essa mudança na prática. Nas conversas mais recentes com clientes, o que faz diferença não é a tecnologia que usamos. É a confiança de que vamos olhar o caso específico da empresa, que somos pessoas reais, que vamos jogar junto.

Um exemplo concreto: um cliente que fechou recentemente disse algo que ficou comigo. “Não aguento mais papinho. As empresas vêm e não entendem meu negócio. Parece que estou falando com um robô. Estou fechando com vocês porque vocês entenderam o meu negócio.” Esse comentário veio antes de qualquer discussão sobre tecnologia ou escopo. O que pesou foi olho no olho, credibilidade, garantia de jogar junto.

Não estou vendendo SDR terceirizado.

Não estou vendendo ferramenta de prospecção.

Estou vendendo orquestração de venda. É diferente.

O que isso significa para quem vende B2B

Para consultorias, agências e prestadores de serviço B2B, a pergunta deixa de ser “como eu implemento IA?” e passa a ser “como eu uso IA para assumir mais responsabilidade pelo resultado do cliente?”.

Isso muda a natureza da conversa comercial. Muda o posicionamento. Muda a forma de precificar.

Se você está vendendo parte da solução, está competindo com ferramenta. Se está vendendo o problema resolvido, está competindo com confiança. E confiança se constrói com gente, não com prompt.

A IA não está substituindo o serviço. Está tornando possível entregar serviço em escala, com consistência, com dados.

Mas quem entrega continua sendo gente.

Quem responde quando dá errado continua sendo gente.

Quem adapta o processo para o contexto específico daquele cliente continua sendo gente.

Esse é o modelo que está ganhando: tecnologia + pessoas > tecnologia sozinha.


Uma reflexão para fechar

Se sua empresa está investindo em ferramentas de vendas e os resultados não estão aparecendo, talvez o problema não seja a ferramenta. Talvez seja a expectativa de que a ferramenta resolveria sozinha.

IA gera texto, mas não sabe se aquele texto conecta com a dor do comprador. IA monta cadência, mas não sabe quando parar de insistir e quando apertar. IA faz pesquisa, mas não sabe qual informação importa para aquele contexto específico.

O cliente não quer saber qual tecnologia você usa. Ele quer saber se você vai resolver o problema dele. E se vai continuar ali quando der errado.

Se você está nesse momento de reavaliar como sua operação comercial funciona, vale a conversa. Sem compromisso, sem pitch. Só para entender o cenário e ver se faz sentido trocar ideia.

Minha agenda está aqui – pode agendar e vamos falar!


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