Eu me desiludi muito com a publicidade nos últimos 20 anos.
Por isso evito escrever sobre o tema.
Mas a Pepsi me pegou desprevenido com o comercial do Super Bowl. E me fez lembrar por que um dia eu quis trabalhar com isso.
Anos 80. Uma palestra com Roberto Duailibi.
Foi o suficiente para eu ter certeza que aquela era a minha área.
Criatividade. Ousadia. Ideias que faziam as pessoas pararem o que estavam fazendo para prestar atenção.
Durante a carreira, tive a sorte de ser atendido pela DPZ, W/Brasil, McCann. Conheci Nizan, Olivetto, Luiz Lara, Eduardo Fischer. Tive aula com Ricardo Ramos.
Caras que ousavam. Que saíam na pancada com a concorrência.
Folha vs Estadão.
O rato irritante da Folha que todo mundo queria esmagar. O Estadão respondendo com “o que funciona”. Guerra aberta.
Mon Bijou vs Confort.
Carlos Moreno provocando: “Você também é bom, não precisa ficar chateado”. A Unilever reclama. A Bombril volta com o frasco coberto: “Andou reclamando e não vai mais aparecer na televisão”.
Genial.
No mundo, a batalha Sega vs Nintendo. “Sega does what Nintendon’t”.
Apple vs PC. “I’m a Mac. And I’m a PC”. Simples. Devastador.
Tudo isso até início dos anos 2000.
Depois, a publicidade ficou chata.
Previsível. Repetitiva. Discursiva.
E o pior crime: auto-referente. Publicitários só falando do próprio universo da publicidade.
@Walter Longo capturou bem isso no texto “O Totem Perdido: A Função Mágica da Propaganda”:
“Com a entrada dos anos 2000, essa função simbólica começou a ser desconstruída. O totem perdeu sua aura. O xamã foi substituído pelo algoritmo. A estética do sonho cedeu espaço à estética da realidade. A publicidade passou a operar sob a lógica do espelho — e não mais da lente.”
Em tempos de influenciadores, cifras falam mais alto que ideias.
E a publicidade perdeu.
Daí que é um sopro ver o comercial da Pepsi.
Um urso polar (ícone da Coca-Cola desde 1993) faz teste cego. Escolhe Pepsi. Entra em crise existencial. Procura terapia com Taika Waititi.
“I Want to Break Free” tocando ao fundo.
No final, o urso assume: é um Pepsi lover.
Já são décadas de provocação bem-humorada entre Pepsi e Coca.
E aqui está o ponto interessante: não é David vs Golias. São dois gigantes.
Mas a dinâmica “Líder vs Desafiante” cria toda a diversão.
O líder é corporativo. Conservador. Defendendo posição.
A Coca-Cola nem vai ao Super Bowl desde 2020. Focou na Copa do Mundo.
O desafiante se permite ser ousado. Provocador.
O segundo lugar tem “licença pra causar”.
E a Pepsi usa isso brilhantemente.
Enquanto isso, o mercado brasileiro produz anúncios seguros. Aprovados por 17 comitês. Sem alma.
Tô velho e saudosista?
Talvez.
Mas ainda me pego excitado por uma boa ideia.
E sentindo falta de uma publicidade que não tinha medo de ser publicidade.
Que não precisava pedir desculpas por querer vender.
Que entendia que provocação inteligente gera conversa.
E que conversa gera lembrança.
E que lembrança gera negócio.
A Pepsi lembrou disso. E funcionou.
O comercial já tem milhões de visualizações. Está em todo lugar. Pessoas comentando, compartilhando, debatendo.
Isso é o que publicidade deveria fazer.
Não desaparecer na timeline.
Não ser “conteúdo”.
Ser ideia.